Uber enfrenta crise em seu comando

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Após repetidas polêmicas, de acusações de ilegalidade trabalhista a assédio sexual, a Uber enfrenta uma de suas piores crises e, na tentativa de tentar recuperar sua imagem, já considera até mesmo afastar seu fundador e diretor-executivo, Travis Kalanick. Ele poderia receber uma licença, ou ter suas atribuições modificadas. Um cenário desalentador para uma empresa que surgiu prometendo revolucionar a Mobilidade urbana, tornando-se, com o Airbnb, um sinônimo de economia do compartilhamento. Em mais uma etapa do inferno astral enfrentado pela empresa, ontem ocorreu a saída do vice-presidente sênior, Emil Michael. 

Criada em 2009 e lançada no ano seguinte em São Francisco, nos Estados Unidos, a Uber foi um sucesso imediato. No Brasil, ela começou em 2014. Mas logo surgiram tanto as queixas de meios de transporte tradicionais, como os táxis, quanto dos próprios profissionais ligados à Uber – o termo uberização passou a ser sinônimo de precariedade nas relações trabalhistas. 

A empresa enfrentou processos trabalhistas, criou um software para enganar autoridades em cidades onde havia restrições legais e, mais recentemente, denúncias de sexismo e assédio sexual. 

A saída de Kalanick foi discutida pelo Conselho de Administração no último domingo e, apesar de provável, ainda não é certa. Após se submeter a uma investigação sobre assédio sexual e cultura de trabalho, o conselho da Uber se reuniu para avaliar as recomendações do ex-procurador-geral dos EUA Eric Holder, que fez uma análise das práticas da empresa. Na semana passada, foram demitidos 20 funcionários em decorrência da avaliação. 

Após sete horas de discussão, o conselho decidiu pelo afastamento de Michael, próximo a Kalanick. Figura controversa dentro e fora da Uber, Michael já protagonizou diversas polêmicas. Em 2014, ele sugeriu que a Uber deveria descobrir e revelar segredos comprometedores de jornalistas que criticavam a empresa. Apesar de descrever os comentários de Michael como terríveis , Kalanick o manteve na companhia. 

James Cakmak, analista da Monness Crespi Hardt, disse à Bloomberg que Michael teria sido sacrificado em uma tentativa de proteger Kalanick. 

Michael e Kalanick, recentemente, foram acusados de terem tido acesso à ficha médica de uma mulher estuprada por um motorista da Uber em Nova Délhi, na Índia, em 2014. Na ocasião, Michael chegou a afirmar que o estupro teria sido armado por uma empresa concorrente.

O presidente de negócios da Uber na região da Ásia-Pacífico, Eric Alexander, foi demitido da empresa na semana passada, apontado como o responsável pela obtenção dos documentos. A demissão, porém, só aconteceu depois que a mídia revelou o incidente. Alexander, no entanto, afirmou que tanto Kalanick como Michael tiveram acesso à ficha médica. O caso de estupro levou as autoridades indianas a proibirem temporariamente o funcionamento da Uber em Nova Délhi. 

SEXISMO E DISPUTAS TRABALHISTAS 

Em uma tentativa de melhorar sua imagem, a Uber vai nomear Wan Ling Martello, executiva da Nestlé, para seu conselho, segundo o Wall Street Journal e a Bloomberg. Desde a semana passada, é a terceira mulher a ser convocada. 

A Uber já havia anunciado a contratação de Frances Frei, professora de Administração na Universidade de Harvard, como vice-presidente sênior de estratégia e liderança, e de Bozoma Saint John, da Apple, como diretora de marca. 

As acusações de sexismo surgiram após a engenheira Susan Fowler criar um blog contando sobre atos de assédio sexual e discriminação na empresa. Ela trabalhou na Uber de novembro de 2015 a dezembro de 2016. Uma de suas denúncias relatava uma proposta de noitada por um superior. 

No ano passado, a Uber perdeu uma disputa na Justiça britânica, pela qual terá de pagar salário mínimo e direitos trabalhistas aos motoristas. A empresa apelou, e haverá uma audiência em setembro. 

Já em Nova York, a Uber, no mês passado, admitiu ter calculado para baixo os recursos devidos aos motoristas. A empresa vai reembolsá-los em US$ 900. Sob a legislação local, eles são considerados empregados. 

Os resultados da análise de Holder serão divulgados hoje. A Uber disse que seu conselho se comprometeu a acatar todas as recomendações.

Fonte: Jornal O Globo, 13/06/2017

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