Como a nova política de preços da Petrobras impacta o transporte público

A Petrobras anunciou em outubro sua política de preços para os combustíveis no Brasil. Agora o valor dos combustíveis no mercado interno vai acompanhar mais de perto as variações do petróleo no mercado internacional. Desde então já aconteceram duas reduções no preço da gasolina e do óleo diesel, a mais recente foi na terça-feira (8).

No Brasil, o preço dos combustíveis é livre, mas sofre enorme influência da Petrobras. Isso porque a estatal é praticamente monopolista no setor de refino e o valor definido por ela nessa etapa do processo impacta toda a cadeia.

O preço dos combustíveis é observado com especial atenção pelos economistas porque eles são um insumo básico do mercado brasileiro, afetando o preço de quase todas as mercadorias. Cerca de 60% dos deslocamentos de produtos dentro do Brasil é feito por estradas, por exemplo.

Os combustíveis também estão diretamente ligados ao custo de vida nas médias e grandes cidades já que 61% dos passageiros do transporte público utilizam veículos movidos a diesel. As variações no preço da gasolina e, principalmente, do óleo diesel têm influência importante na inflação.

 

Por isso a nova política de preços adotada pela Petrobras tem impacto no transporte público. Em alguns momentos, a cotação do barril de petróleo no mercado internacional puxará o preço dos combustíveis para cima. Em outros, para baixo. O que parece claro nesse primeiro momento é que os reajustes, para cima ou para baixo, serão mais frequentes do que em anos anteriores.

A tarifa no transporte público

O valor que o usuário paga na passagem de ônibus geralmente é reajustado uma vez ao ano. A base para os aumento são planilhas de custo em que os combustíveis têm um peso. Nas grandes cidades o peso do diesel está na casa de 20%.

Acontece que, quando chega o momento de aumento da tarifa, o preço dos combustíveis é medido e comparado ao patamar do reajuste anterior da passagem – diferença de preço do diesel, por exemplo, entre maio de 2016 e maio de 2015. As variações durante o ano, como eram raras até agora, costumavam não ser levadas em conta. Mas a nova política de Petrobras deve tornar o preço dos combustíveis mais volátil, o que pode trazer novas questões para as discussões sobre preços das passagens.

O Nexo fez cinco perguntas sobre o tema para o economista Edmilson Varejão, pesquisador do Centro de Estudos em Regulação e Infraestrutura da Fundação Getulio Vargas (FGV/CERI). Varejão pesquisa os impactos do preço dos combustíveis no transporte público.

Por que a primeira redução anunciada pela Petrobras não chegou ao consumidor final?

EDMILSON VAREJÃO O caso da gasolina é diferente. A gasolina da bomba tem em sua composição a gasolina da refinaria e o etanol. O produtor do etanol é o mesmo produtor do açúcar. O que aconteceu foi que no momento em que a Petrobras anunciou o corte, o açúcar estava em uma trajetória de alta no mercado internacional. Isso fez com que o etanol subisse. O preço da gasolina caiu, mas o preço do etanol subiu tanto que anulou a redução na bomba.

A nova política da Petrobras implica em mais mudanças de preços, mas as passagens costumam ser reajustadas uma vez por ano. Como isso vai funcionar?

EDMILSON VAREJÃO O custo da estocagem do diesel é muito alto, então o que as empresas fazem é ir comprando regularmente o combustível. O preço variando ao longo do tempo, a empresa tem dois cenário. No ruim para ela o preço pode subir, passar o ano alto e ser reduzido no momento do reajuste da tarifa. Ou o contrário, ficando o ano todo baixo e subir no momento do reajuste. Essas flutuações dentro de um ano podem gerar lucro ou prejuízo.

Isso pode mudar a maneira como é feito o cálculo do preço da tarifa?

EDMILSON VAREJÃO É difícil porque para o usuário do transporte é ruim ter sempre uma tarifa diferente. O que vai acontecer é aumentar o risco do negócio para as empresas de ônibus. Em outros ramos, negócios baseados em commodities convivem com esse risco [de flutuações no preço]. Em mercados mais competitivos, o que acontece é que as empresas cobram um preço um pouquinho maior por causa do risco. Quanto mais arriscado o negócio, mais a empresa tem que ter uma margem para sobreviver nos momentos de preço alto. O reflexo disso pode ser tarifas um pouquinho maiores por causa do risco maior do negócio.

Como as variações no preço podem afetar a decisão das pessoas sobre o uso do transporte público?

EDMILSON VAREJÃO Quando uma pessoa compra um carro para ir ao trabalho, mesmo que inconscientemente, ela faz uma conta de quanto vai gastar com o carro e o transporte público. As pessoas, quando olham o custo do transporte diariamente, tomam a decisão. Se o preço da gasolina subiu [e o da tarifa permanece o mesmo], elas podem deixar o carro na garagem. Se ele enxergar que esse aumento é permanente, pode influenciar decisões mais permanentes como vender o carro. O que as pessoas vão enxergar no dia a dia é que essa flutuação pode tornar o transporte coletivo mais ou menos atraente.

Municípios querem usar a Cide, uma contribuição sobre o preço da gasolina, para financiar redução do preço da tarifa. O senhor é a favor?

EDMILSON VAREJÃO Quando cai o preço da gasolina, isso gera um incentivo, ainda que pequeno, ao uso do carro. As pessoas usando mais carro, gera um aumento do congestionamento, que gera uma diminuição da velocidade dos ônibus. E aí para atender um mesmo número de pessoas, é preciso mais ônibus, mais motoristas e isso impacta na planilha de custos das tarifas.

A ideia é que os municípios possam criar uma contribuição que incide sobre o valor da gasolina. O dinheiro teria que ser usado para o transporte, ou custeio ou investimento em infraestrutura. É o usuário do carro financiando parte da passagem de quem usa o transporte coletivo. A lógica econômica disso é que quem gera uma externalidade negativa para os outros, como o dono do carro que gera congestionamento, seja tributado. Essa pessoa é cobrada por gerar um efeito negativo a outros.

Fonte: Nexo Jornal

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