O papel da mobilidade urbana no acesso à cidade

Deslocar-se pelas cidades é requisito básico para o acesso e o desenvolvimento da maioria das atividades humanas. São viagens diárias entre residência e trabalho, estudo, lazer, ou outros compromissos cotidianos. E nem sempre são feitas com as melhores condições de conforto, seja em transportes lotados ou congestionamentos. Mobilidade urbana é um tema muito atual e bastante debatido, desde rodas de conversas informais até seminários técnicos e científicos. É difícil encontrar alguém que não tenha uma opinião formada sobre o assunto ou alguma solução milagrosa para os problemas de sua cidade ou região. Já postamos no site diversos artigos sobre o assunto, sejam de propostas utópicas até questões relacionadas ao cotidiano da maior parte da população.

Nossas cidades são produzidas ininterruptamente, crescem e se reinventam através de políticas públicas e iniciativas de entes privados que seguem interesses diversos, com as condições de acessibilidade e infraestruturas sendo majoritariamente construídas através de investimentos do Estado. O autor  Flavio Villaça aponta que as noções de “perto e longe”, “bem localizado e mal localizado” não podem ser reduzidas a simples distâncias físicas. São produzidas através dos sistemas de transportes, da disponibilidade de veículos entre distintos estratos de renda (automóvel x transporte público), por meio da distribuição espacial das camadas sociais, dos locais de emprego, das zonas comerciais e de serviços, dos centros (que nem sempre correspondem aos centros antigos). Quanto mais conectado, bem servido de transportes e “bem localizado” um local, mais valorizado ele é. Enquanto alguns podem escolher onde morar, muito outros residem onde é possível. Isso quer dizer estar mais próximo ou mais afastado do seu trabalho, das opções culturais e de lazer da sua cidade. Assim, o espaço urbano reproduz, amplifica e consolida as desigualdades da sociedade. E a mobilidade é uma das formas mais brutais de evidenciar  diariamente essas disparidades, por meio dos deslocamentos penosos que grande parte da população tem que passar.

A maioria das cidades se consolidou em um modelo centro-periferia, com ocupações espraiadas, alta concentração de oportunidades — empregos, serviços, saúde, educação, lazer e cultura nas áreas centrais, e as camadas menos favorecidas morando nas periferias (os chamados bairros-dormitório). É por isso que a mobilidade está diretamente relacionada à inclusão social e o acesso às benesses produzidas nas cidades. Abordar a mobilidade urbana e acessibilidade à cidade de uma forma mais holística e abrangente é vital. São mais sintomas do que problemas em si. Buscar resolver problemas de mobilidade apenas com transportes é como enxugar gelo.

Políticas habitacionais sérias, controle de preços, combate a gentrificação, e a criação de espaços públicos, culturais e de educação devem estar no cerne do planejamento urbano. Descentralizar os investimentos públicos é também imprescindível, para reduzir as necessidades de viagens. Mas o que a mobilidade urbana tem a ver com acessibilidade? Proporcionar condições de deslocamentos acessíveis e adequados permite o acesso, a integração e o convívio dos habitantes com as cidades. E isso não quer dizer a apenas dispor transportes da residência ao trabalho. Quer dizer proporcionar o acesso à cultura e ao lazer. Se as cidades são construídas com investimentos públicos, nada mais justo que permitir o usufruto de todos.

© Mariana Gil / WRI Brasil
© Mariana Gil / WRI Brasil

A mobilidade urbana não deve ser estudada ou considerada de forma isolada, limitada a um problema de transporte público, modais, de engenharia de transportes ou eficiência de deslocamentos. Deve ser integrada a uma reflexão sobre a totalidade urbana, de sua complexidade e contradições, dos conflitos e diferentes interesses e desigualdades que se manifestam nas cidades. A mobilidade urbana deve, antes de tudo, ser pensada para proporcionar um maior acesso à cidade. O arquiteto desenha a cidade, seja através de um pequeno edifício ou de um masterplan. Temos que ter a consciência de que cidades e sociedades mais justas podem ser possíveis através das nossas ações.

Por: Eduardo Souza – Arquiteto Urbanista formado pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

 

 

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